terça-feira, 3 de junho de 2014

Um dia normal para a humanidade

Era alto, ruivo e gago. Seu nome era Joel e gostava de futebol. Trabalhava na feira. Cantarolava o nome das frutas. Causava sensação entre os feirantes e as donas de casa. Sonhava em, um dia, comprar um caminhão.

Para esse homem de hábitos simples, o dia começava antes mesmo dos primeiros raios preguiçosos de sol acalentar a Terra. Levava uma vida árdua. Após um café da manhã ralo, era sempre um dos primeiros a montar a barraca na feira e, jeitosamente, organizar as frutas que lhe garantiam o sustento mensal.

Ainda cedo, as pessoas começavam a perambular por entre as barracas. Com o andar dos ponteiros, os ruídos cresciam e, logo, o local estava repleto de clientes. A voz grave de um feirante se destacava dentre tantos sons distintos. Era Joel cantando o nome das frutas. Distribuindo alegria por onde passava, ele tornou-se popular, “ruivo alegre”, “alegre gago” era como costumavam chamá-lo.

Em torno do meio-dia, ele abria a sua matula e, escondido atrás da barraca, devorava o seu feijão, arroz e carne de cada dia. Ele tinha vergonha de que os outros o vissem comendo. Não sabia exatamente o porquê. Durante a tarde, o movimento continuava intenso. Mas com tantos outros feirantes vendendo frutas também, o dinheiro que Joel ganhava era suficiente apenas para pagar o aluguel e as contas.

Apesar das dificuldades, ele jamais se sentia triste ou abatido. Quase sempre estava bem humorado e exibindo um largo sorriso no rosto. Sua única decepção era não conseguir comprar um caminhão para viajar estradas afora. Ele carregava esse desejo desde os marotos e ternos tempos de infância.

Ao fim do dia, Joel desmontava a barraca com agilidade e guardava as frutas restantes. Em dias alternados, chegava em casa, trocava de roupa e ia jogar futebol com os amigos. Ele não era dos melhores ao lidar com a bola, mas também não figurava entre os piores. Vez ou outra fazia um gol e comemorava com veemência. 

Depois do jogo, chegava em casa, tomava um banho e cozinhava com o rádio ligado no último volume. Fazia comida suficiente para a janta e o almoço do dia seguinte. Comia sentado em frente da televisão e, logo que terminava, já se preparava para ir dormir. Tinha um sono pesadíssimo. Em dias de muito cansaço, costumava roncar um pouco. No outro dia, tudo novamente.

Foi em um desses dias, completamente normais e iguais na vida do jovem ruivo, que um fato completamente anormal quebrou-lhe a rotina. Ele estava indo para a feira, quando avistou um enorme e reluzente caminhão vindo em sua direção na calçada. Imaginou-se dentro dele e, por alguns segundos antes de morrer, viu seu sonho realizado.

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